Quase todo mundo descobre as milhas do mesmo jeito: chega um e-mail do banco avisando que alguns milhares de pontos vão vencer no mês que vem. Bate a pressa, a pessoa transfere tudo para a primeira companhia aérea que aparece e troca por qualquer voo, ou pior, por uma panela no catálogo.
Quanto vale uma milha depende muito do momento da transferência e da passagem em que ela é usada. Acertar essas duas coisas pede um pouco de conta, e só.
Como os pontos do cartão viram milhas
O cartão de crédito gera pontos num programa ligado ao banco. Os maiores são a Livelo, criada em 2016 pelo Banco do Brasil e pelo Bradesco, e a Esfera, do Santander. Esses pontos viram milhas quando você transfere para o programa de uma companhia aérea.
No Brasil, são três: o LATAM Pass, da LATAM, a Smiles, da GOL, e o Azul Fidelidade, da Azul, que se chamava TudoAzul até março de 2024 e usa pontos em vez de milhas. Na prática, funciona igual.
A maioria dos cartões pontua por dólar gasto, mesmo nas compras feitas em reais. Nos cartões do Banco do Brasil e do Bradesco que pontuam na Livelo, a pontuação vai de 0,5 a 4 pontos por dólar, conforme a categoria. Cartão com anuidade alta só compensa se os pontos a mais pagarem a anuidade, e para muita gente essa conta não fecha.
Só transfira com bônus
Livelo e Esfera transferem para Smiles, LATAM Pass e Azul Fidelidade na paridade de 1 para 1, ou seja, mil pontos viram mil milhas. Transferir assim, sem bônus, quase nunca é boa ideia, porque os programas aéreos fazem campanhas que dão milhas extras em cima do que você manda.
Um exemplo recente: em 27 e 28 de agosto de 2026, a Smiles deu 80% de bônus para assinantes do Clube Smiles e clientes Diamante, e 50% para os demais, com teto de 300 mil milhas de bônus por CPF. Em maio, na transferência vinda da Esfera, foram 70% e 40%.
Com bônus de 80%, 20 mil pontos viram 36 mil milhas.
As milhas de bônus costumam vencer antes das outras: na campanha de agosto, elas valiam 12 meses. E ponto parado no banco é mais flexível que milha parada na companhia, porque ainda pode ir para qualquer um dos três programas. Transfira quando houver bônus bom e uma viagem em vista.
Quanto custa o seu milheiro
Custo do milheiro é quanto você pagou por cada mil milhas. Para calcular, divida o valor gasto pela quantidade de milhas recebidas e multiplique por mil.
Na Livelo, mil pontos custam R$ 70 sem desconto. Na primeira metade de setembro de 2026, assinantes do Clube Livelo puderam comprar com 52% a 58% de desconto, conforme o tempo de assinatura, o que deixou o milheiro entre R$ 33,60 e R$ 29,40 no cartão. Veja o que acontece quando uma compra dessas encontra um bônus como o da Smiles em agosto:
| Como você comprou | Você paga | Milhas na Smiles | Custo do milheiro |
|---|---|---|---|
| 10 mil pontos a R$ 70 o milheiro, sem bônus | R$ 700 | 10.000 | R$ 70,00 |
| 10 mil pontos a R$ 33,60, bônus de 50% | R$ 336 | 15.000 | R$ 22,40 |
| 10 mil pontos a R$ 33,60, bônus de 80% | R$ 336 | 18.000 | R$ 18,67 |
| 10 mil pontos a R$ 29,40, bônus de 80% | R$ 294 | 18.000 | R$ 16,33 |
Para ter uma régua, o Melhores Destinos calculou, com base nas promoções de janeiro a julho de 2026, um valor-alvo de R$ 16 por milheiro na Smiles, R$ 26 no LATAM Pass e R$ 13 na Azul Fidelidade. Só a última linha da tabela chega perto da meta da Smiles, e ela exige dois clubes pagos ao mesmo tempo, um deles com mais de quatro anos de assinatura. Mensalidade de clube também é custo e entra na conta.
Quanto cada milha vale na hora de emitir
Na emissão, a conta é a inversa. Pegue o preço da passagem em dinheiro, tire a taxa de embarque, que você paga de qualquer jeito, e divida pelos milhares de milhas pedidos.
Um exemplo com a tarifa média doméstica de agosto de 2026, R$ 776,87, que a ANAC já calcula sem a taxa: se o mesmo voo custasse 20 mil milhas, cada milheiro estaria valendo R$ 38,84. Com milhas que custaram R$ 16, seria um ótimo negócio. Se o programa pedisse 50 mil milhas, o milheiro cairia para R$ 15,54, e pagar em dinheiro sairia melhor.
Dá para achar emissão bem mais barata que isso, desde que você tenha saldo e flexibilidade. Na noite de 29 de julho de 2026, o LATAM Pass tinha São Paulo a Passo Fundo por 3.775 milhas o trecho, e a Azul Fidelidade vendia Belo Horizonte a São Paulo por 3.900 pontos mais taxas. Promoções assim duram poucas horas.
As armadilhas mais comuns
Validade: pontos da Livelo e da Esfera vencem em 24 meses. No LATAM Pass, as milhas valem 36 meses e se renovam a cada voo com a LATAM. Na Azul Fidelidade, os pontos duram no mínimo 24 meses, e na Smiles o prazo depende da origem da milha e da sua categoria, como mostra a tabela de validade da Smiles. Ponha o vencimento no calendário do celular assim que transferir.
Taxa de embarque: passagem com milhas não sai de graça, porque a taxa é cobrada à parte. Em janeiro de 2026, a taxa doméstica média em 30 aeroportos era de R$ 48,81, segundo o Melhores Destinos, e passava de R$ 62 em Congonhas e no Santos Dumont. A Smiles deixa pagar a taxa com milhas, mas num exemplo de 2025 do site Cartões, Milhas e Viagens, uma taxa de R$ 33,56 custou 4 mil milhas, o que dá R$ 8,39 por milheiro. Pague no cartão.
Remarcação: emitiu e mudou de plano, paga. Na Smiles, remarcar um voo nacional da GOL emitido com milhas custa R$ 450 por trecho e por passageiro, segundo a página de serviços do programa em setembro de 2026. Tem passagem inteira que custa menos que isso.
Promessa boa demais: em agosto de 2023, a 123milhas suspendeu a emissão das passagens promocionais de datas flexíveis previstas para setembro a dezembro e, dias depois, pediu recuperação judicial. Quem tinha comprado pacote barato com meses de antecedência ficou sem a viagem planejada. Se uma intermediária vende muito abaixo do que as próprias companhias cobram, desconfie.
A última armadilha é mais silenciosa: comprar pontos só porque estão com desconto, sem viagem em vista. Promoção de compra aparece com frequência, e ponto comprado sem plano costuma acabar vencendo no extrato.
Datas para ficar de olho
Os programas costumam guardar promoções fortes para aniversários e datas do varejo. No calendário do Melhores Destinos para 2026, as próximas são o aniversário do LATAM Pass, em 30 de setembro, o da Smiles, em 18 de outubro, a Black Friday, em 27 de novembro, e o aniversário da Azul, em 15 de dezembro.
Não precisa correr atrás de todas. Escolha um programa principal, de preferência o da companhia que mais voa na sua cidade, e concentre as milhas nele. Espalhar saldo em três programas é o jeito mais fácil de não ter o suficiente em nenhum.
Por onde começar
Se você está começando do zero, a ordem é curta. Descubra em qual programa o seu cartão pontua e quando os pontos vencem, e crie a conta no programa da companhia que você mais usa.
Depois, espere uma transferência com bônus. Antes de emitir, faça as duas contas: quanto a milha te custou e quanto ela vale naquela passagem.
No começo, a meta é modesta: emitir uma passagem pagando menos do que pagaria em dinheiro, com milhas que custaram abaixo do valor-alvo do programa. Depois que essa conta fecha uma vez, as próximas ficam bem mais fáceis.
