O jornal diz que o dólar está em R$ 5,20. Aí chega a fatura da viagem e cada dólar gasto lá fora saiu por R$ 5,70. Ninguém errou a conta. Entre um número e outro tem imposto e tem a margem do banco, e é a margem que muda de um lugar para outro.
Em 25 de setembro de 2026, a PTAX, cotação oficial do Banco Central, fechou em R$ 5,1991. Naquele dia, US$ 1.000 em compras no cartão de crédito custavam de R$ 5.575 a R$ 5.703 entre os cinco bancos que a gente olhou. Numa conta global, saíam perto de R$ 5.490.
O IOF agora é igual para quase tudo
Desde 2025, o IOF é de 3,5% nas compras no exterior com cartão de crédito ou débito, na recarga de cartão pré-pago, nos saques em caixa eletrônico lá fora, na compra de dinheiro vivo e na transferência para uma conta em seu nome no exterior, que é como a conta global funciona. Só o dinheiro mandado para investir lá fora paga menos, 1,1%. As alíquotas estão no decreto do IOF.
A regra vale também para compra em site estrangeiro cobrada em dólar, mesmo feita do sofá de casa. É compra internacional, com os mesmos 3,5%.
Antes do aumento, dinheiro vivo e conta global pagavam 1,1%, e o IOF do cartão vinha caindo ano a ano: pela regra de 2022, estaria em 2,38% em 2026 e chegaria a zero em 2028. Esse calendário foi revogado. O Congresso chegou a derrubar o decreto, mas uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, restabeleceu o aumento em julho de 2025, e o caso ainda espera julgamento no plenário.
Na prática, o imposto deixou de ser critério de escolha. O que separa a opção barata da cara agora é o spread, a margem que cada instituição coloca em cima do dólar.
Quanto cada banco cobra acima do dólar oficial
Desde março de 2020, a compra no cartão de crédito internacional é convertida pela taxa do dia do gasto, e o banco é obrigado a divulgar todo dia a taxa que usou, pela Circular 3.918 do Banco Central. Os emissores publicam esse histórico em dados abertos, reunidos no portal do BC. Foi de lá que a gente tirou as taxas das compras no crédito de 25 de setembro de 2026:
| Cartão de crédito | Taxa do dia | Acima da PTAX | US$ 1.000 com IOF |
|---|---|---|---|
| Banco do Brasil | R$ 5,3867 | 3,6% | R$ 5.575,23 |
| Caixa | R$ 5,4000 | 3,9% | R$ 5.589,00 |
| Nubank | R$ 5,4071 | 4,0% | R$ 5.596,35 |
| C6 Bank | R$ 5,4508 | 4,8% | R$ 5.641,58 |
| Itaú | R$ 5,5100 | 6,0% | R$ 5.702,85 |
Um dia só pode enganar, então olhe também a média dos dias úteis de setembro até o dia 25: Caixa com 3,9% acima da PTAX, Banco do Brasil e Nubank com 4%, C6 com 5,2% e Itaú com 6%. No Nubank, a margem foi de exatos 4% em todos esses dias.
E não conte com o débito para sair mais barato que o crédito. No Banco do Brasil, a taxa do débito internacional no dia 25 foi R$ 5,4264, acima dos R$ 5,3867 cobrados no crédito.
Sobre US$ 1.000, a diferença entre o Banco do Brasil e o Itaú foi de R$ 127,62 num único dia de compras. Antes de viajar, procure no app ou no site do seu banco a taxa de conversão do cartão. Todo emissor é obrigado a mostrar a do dia anterior.
Como a conversão é feita no dia da compra, não adianta torcer para o dólar cair até a fatura fechar. Alguns bancos oferecem converter pelo dia do pagamento, mas só se você pedir expressamente, e aí o risco da cotação fica todo com você.
Desconfie de “spread zero”. O Mercado Pago anuncia spread zero no cartão, e a taxa que informou para as compras no débito de 25 de setembro foi R$ 5,3031, exatos 2% acima da PTAX. O zero é em cima da cotação que o próprio banco define. Ainda assim, foi a taxa mais baixa entre os cartões que a gente conferiu.
Conta global: o mesmo IOF, com spread menor
Na conta global, você converte os reais para dólar, euro ou outra moeda antes de gastar e paga lá fora com um cartão de débito. O IOF é o mesmo, 3,5%. A diferença está na margem: na Nomad, a taxa de conversão começa em 2% e cai até 1% conforme o nível do cliente no programa Nomad Pass. Wise, Inter e C6 têm contas parecidas, cada uma com a sua tarifa.
Usando a PTAX de 25 de setembro como referência, os mesmos US$ 1.000 sairiam perto de R$ 5.490 na Nomad, no nível inicial. São uns R$ 210 a menos que no cartão do Itaú e uns R$ 85 a menos que no do Banco do Brasil. Numa viagem com US$ 3.000 de gastos, a distância para o cartão mais caro da tabela passa de R$ 600.
Outra vantagem é saber o custo na hora. O dólar comprado não muda mais, e dá pra converter aos poucos nas semanas antes da viagem, o que tira o peso de acertar o dia.
Os cuidados: o cartão é de débito, e muito hotel e muita locadora lá fora pedem cartão de crédito para a caução. Leve um cartão de crédito de reserva.
Saque também tem regra própria. Com cartão de banco brasileiro, tirar dinheiro num caixa eletrônico lá fora paga os mesmos 3,5% de IOF e pode ter tarifa do banco e do dono do caixa. Na conta global, o IOF já foi pago na conversão, e o que pesa é a tarifa: na Nomad, sacar nos caixas da rede MoneyPass, nos Estados Unidos, não custa nada, e fora dela custa US$ 5 por saque. Se for sacar, faça poucos saques de valor maior.
Dinheiro vivo ficou mais caro
Com o IOF passando de 1,1% para 3,5%, o dinheiro em espécie perdeu a vantagem que tinha. O Banco Central publica todo mês o ranking do VET, o custo total de cada dólar já com IOF e tarifas. Em agosto de 2026, comprar dólar em espécie para viagem custou de R$ 5,37 a R$ 6,12, conforme a instituição. A PTAX média do mês foi R$ 5,15.
Nos bancos de varejo, a faixa foi estreita: R$ 5,48 no Bradesco, R$ 5,49 no Banco do Brasil, R$ 5,50 no Itaú, R$ 5,55 no Santander e R$ 5,57 na Caixa. Entre as instituições com mais operações no ranking, o Daycoval cobrou R$ 5,54 e a Confidence, R$ 5,64. O mais caro da lista foi o Safra, com R$ 6,12. O cartão pré-pago de viagem, que também paga 3,5% de IOF, ficou entre R$ 5,44 e R$ 5,55 nas instituições listadas.
Leve pouco, o suficiente para táxi, gorjeta e um ou outro lugar que não aceite cartão. E respeite o limite: quem sai do Brasil ou entra no país com mais de US$ 10.000 em espécie, ou o equivalente em outra moeda, precisa declarar à Receita Federal pela e-DBV. Sem a declaração, o viajante pode perder o que passar desse valor.
Na maquininha, escolha a moeda local
Lá fora, a maquininha ou o caixa eletrônico às vezes oferece cobrar em reais. Parece prático, mas aí quem escolhe a cotação é a empresa que processa o pagamento para a loja, e não o seu banco, aquele cuja taxa você conferiu. Recuse e pague na moeda do país.
Pontos no cartão não pagam o spread
Tem gente que usa o cartão de crédito lá fora só para juntar pontos. Faça a conta antes: um cartão que dê 2 pontos por dólar, com cada ponto valendo 2 centavos na troca, devolve uns R$ 40 a cada US$ 1.000 gastos. Só a diferença entre o cartão do Nubank e a conta global do exemplo passa de R$ 100.
Pontos só empatam quando valem muito na troca, e isso depende de passagem e de bônus de transferência. A conta completa de quanto um ponto vale está no nosso texto sobre cashback ou pontos.
A ordem que sai mais barata
Para a maioria das viagens, funciona assim: conta global para o grosso dos gastos, carregada aos poucos antes do embarque; um cartão de crédito com spread baixo para as cauções e para emergências; e pouco dinheiro vivo, comprado onde o ranking do BC mostra preço bom.
Antes de sair, abra o app do banco e anote a taxa do cartão de ontem. Se ela estiver 6% acima da PTAX, cada US$ 1.000 gastos nele custam uns R$ 200 a mais do que numa conta global.
