Conta fixa tem uma característica perigosa: você não decide pagar, ela simplesmente sai. O débito automático passa, o cartão é cobrado, e a gente só lembra que assina alguma coisa quando chega o e-mail do reajuste.
Por isso cortar conta fixa costuma render mais do que economizar no cafezinho. Você resolve uma vez e o dinheiro volta todo mês, sem depender de força de vontade.
Comece pelo extrato, não pela tesoura
Antes de cancelar qualquer coisa, abra os extratos do banco e as faturas do cartão dos últimos três meses e liste tudo o que se repete: assinatura de app, seguro, tarifa, plano de celular, academia. Quase sempre aparece algo que você esqueceu que pagava.
Do lado de cada item, anote o custo por ano, não por mês. O plano Standard do HBO Max custa R$ 44,90 por mês, o que parece pouco. Em um ano, são R$ 538,80.
Com a lista na mão, separe tudo em três grupos: o que você usa e gosta, o que usa pouco e o que nem lembrava que existia. O terceiro grupo sai hoje mesmo.
Celular e internet: pague pelo que você usa
No celular, veja nas configurações quanto de dados você gastou nos últimos meses. Se o plano tem o triplo disso, dá pra descer um degrau sem sentir diferença.
Na internet de casa, quem vende o plano é a velocidade. Só que a Netflix recomenda 15 Mbps pra assistir em 4K e 5 Mbps em Full HD, segundo a central de ajuda do serviço. Se ninguém em casa baixa jogo pesado ou sobe arquivo grande pro trabalho, um plano intermediário costuma dar conta de várias telas ao mesmo tempo.
As regras também mudaram a seu favor. Desde 1º de setembro de 2025 vale o novo regulamento de direitos do consumidor da Anatel, a Resolução 765. Pela regra:
- fidelidade pra pessoa física tem no máximo 12 meses;
- a multa por sair antes é proporcional ao tempo que falta e não pode passar do valor do benefício que você recebeu;
- renovar a fidelidade sem o seu consentimento é proibido;
- o cancelamento pelo site ou pelo app tem que ser automático, sem passar por atendente.
Ninguém é obrigado a ouvir oferta de retenção pra cancelar. Mas vale ouvir de propósito antes: diga que vai sair e peça a melhor proposta pra você ficar. Muitas vezes aparece o mesmo plano mais barato, ou mais velocidade pelo mesmo preço.
Streaming em rodízio
Estes são os preços mensais nos sites oficiais, consultados em setembro de 2026:
| Serviço | Com anúncios | Sem anúncios | Plano mais completo |
|---|---|---|---|
| Netflix | R$ 20,90 | R$ 44,90 | R$ 59,90 |
| Disney+ | R$ 29,90 | R$ 49,90 | R$ 69,90 |
| HBO Max | R$ 29,90 | R$ 44,90 | R$ 55,90 |
Só os três planos sem anúncios somam R$ 139,70 por mês, ou R$ 1.676,40 por ano. O Amazon Prime, que inclui o Prime Video, sai por R$ 19,90 por mês ou R$ 166,80 por ano, segundo a página da Amazon.
A estratégia que funciona é o rodízio: fica com um ou dois serviços por vez, assiste ao que queria e troca no mês seguinte. No plano mensal, dá pra cancelar e voltar quando sair a temporada nova.
Os planos anuais dão desconto, mas prendem. O Disney+ anuncia economia de 30% no anual, e o HBO Max cobra 12 parcelas de R$ 34,90 no Standard, contra R$ 44,90 no mensal. Nesse caso, o anual só compensa pra quem ficaria assinando mais de nove meses no ano. No rodízio, o mensal ganha.
E se anúncio não te incomoda, o plano com anúncios da Netflix custa menos da metade do Padrão.
Conta de luz: bandeira, tarifa branca e tarifa social
As bandeiras tarifárias somam um valor a cada 100 kWh consumidos quando gerar energia fica mais caro. Os valores em vigor em 2026:
| Bandeira | Acréscimo a cada 100 kWh |
|---|---|
| Verde | nenhum |
| Amarela | R$ 1,885 |
| Vermelha patamar 1 | R$ 4,463 |
| Vermelha patamar 2 | R$ 7,877 |
A amarela valeu de maio a setembro de 2026, e a ANEEL anunciou bandeira verde pra outubro, segundo o Olhar Digital. Numa casa que gasta 200 kWh por mês, a amarela somava R$ 3,77 na conta, e a vermelha patamar 2 somaria R$ 15,75.
Bandeira ninguém controla. A modalidade da tarifa, sim. A Tarifa Branca cobra mais caro no horário de pico dos dias úteis, um pouco mais caro na hora antes e na hora depois, e mais barato no resto do dia. Fim de semana e feriado nacional contam inteiros como fora de pico. O horário de pico muda de uma distribuidora pra outra, então confira o da sua.
Ela compensa pra quem consegue jogar máquina de lavar, ferro de passar e banho quente pra fora do pico. Pra quem toma banho bem no horário de pico todo dia, a conta sobe. A troca do medidor fica por conta da distribuidora, e se não der certo dá pra voltar à tarifa convencional, mas uma nova adesão à branca só depois de 180 dias, segundo a ANEEL.
Vale também checar se alguém da família tem direito à Tarifa Social. Pela Lei 15.235, de 2025, famílias do CadÚnico com renda de até meio salário mínimo por pessoa, quem recebe o BPC e famílias indígenas e quilombolas inscritas no CadÚnico não pagam a energia até 80 kWh por mês. O que passar disso é cobrado normalmente, segundo a Câmara dos Deputados.
Tarifa de banco: dá pra pagar zero
Todo banco é obrigado a oferecer um conjunto de serviços essenciais sem tarifa, pela Resolução 3.919 do Conselho Monetário Nacional. Na conta corrente, isso inclui cartão de débito, até quatro saques e até duas transferências entre contas do mesmo banco por mês, dois extratos mensais e consultas pela internet à vontade. Em conta que funciona só por meios eletrônicos, os serviços feitos por esses canais não podem ser cobrados.
A mesma resolução garante que você pode pagar só pelos serviços que usar, em vez de um pacote. Se o seu banco cobra pacote todo mês e você vive de Pix e cartão, peça pra migrar pros serviços essenciais. O banco não vai ligar pra te avisar que você paga por algo que não usa.
O Pix entre pessoas físicas não tem tarifa pela regra do Banco Central. As exceções envolvem uso comercial da conta ou Pix feito no caixa da agência quando o app está disponível.
Aumento de tarifa também tem regra: o banco precisa avisar com pelo menos 30 dias de antecedência, ou 45 dias no caso do cartão de crédito. Com tanta conta sem mensalidade no mercado, pacote só faz sentido pra quem ainda usa muito agência, cheque ou saque na boca do caixa.
Seguros que você pode estar pagando em dobro
Seguro é a conta fixa que melhor se esconde. Ele vem embutido no pacote do banco, na fatura do cartão (a tal proteção contra perda e roubo), no empréstimo e na compra parcelada do celular. É o jeito mais elegante de cobrar por uma coisa que o cliente nem pediu.
Pra cada um, confira três coisas. Primeiro, se você sabia que tinha. Se não sabia, puxe o contrato: o Código de Defesa do Consumidor proíbe condicionar a venda de um produto à compra de outro (artigo 39, inciso I), então o banco não pode amarrar o empréstimo pessoal à compra de um seguro. Segundo, se ele cobre algo que outro seguro já cobre, como o seguro de vida da empresa e o do banco ao mesmo tempo. Terceiro, se o preço faz sentido perto do que ele paga quando você precisa.
No seguro do carro, cote antes de renovar e não aceite a renovação no automático. Outra seguradora pode cobrar menos pelo mesmo carro e pelo mesmo perfil. Pergunte também se ela aproveita a sua classe de bônus, porque cada seguradora tem critérios próprios.
Uma tarde resolve quase tudo
Dá pra fazer essa faxina num sábado, nesta ordem:
- Liste as contas recorrentes dos últimos três meses, com o custo anual de cada uma.
- Cancele o que você nem lembrava que pagava.
- Ligue pra operadora e pro banco com os números na mão e peça plano menor ou serviços essenciais.
- Coloque os streamings em rodízio.
- Confira a bandeira do mês e se a Tarifa Branca ou a Tarifa Social fazem sentido pra sua casa.
Cortar conta fixa tem uma vantagem que economia do dia a dia não tem: você faz uma vez e o efeito se repete todo mês. Se a faxina liberar R$ 150 por mês, são R$ 1.800 por ano sem precisar lembrar de nada.
O melhor destino pra esse dinheiro é o menos glamouroso: uma transferência automática pra reserva de emergência, no mesmo dia em que as contas vencem.
