A fatura fechou em R$ 2.000, o salário ainda não caiu e o app oferece, num botão bem simpático, a opção de pagar o valor mínimo. Apertar resolve o mês. O problema começa no mês seguinte.
No dado mais recente do Banco Central, de julho de 2026, o juro médio do rotativo do cartão estava em 436,15% ao ano. Um empréstimo pessoal sem consignação, que já é caro, saía em média por 110,95% ao ano. Dá pra sair do rotativo, e uma regra em vigor desde 2024 ajuda bastante, mas primeiro você precisa entender o caminho que essa dívida faz.
O que acontece quando você paga o mínimo
Quando você paga qualquer valor entre o mínimo e o total, o que sobra vira crédito rotativo: um empréstimo automático, com juros que correm todo dia, até a próxima fatura. Na média de julho, 436,15% ao ano equivalem a cerca de 15% ao mês.
Antes de apertar o botão, olhe a fatura com calma. Pela regra do Banco Central (Resolução BCB 96), ela precisa mostrar, com destaque, quanto de encargos você vai pagar no mês seguinte se pagar só o obrigatório, além das taxas de juros mensal e anual e do Custo Efetivo Total do próximo período. O número está ali. Quase ninguém lê.
O Banco Central não fixa o percentual do pagamento mínimo. Cada banco define o seu no contrato, e qualquer mudança precisa ser avisada com 30 dias de antecedência. No Nubank, por exemplo, o mínimo é uma fatia das compras, das parcelas e do saldo anterior, somada aos juros, tributos e multas lançados na fatura.
Desde 2017, o rotativo tem prazo de validade: o saldo só pode ficar nele até o vencimento da fatura seguinte (Resolução 4.549). Depois disso, ou você quita, ou o saldo vai para um parcelamento, que pela regra precisa ter condições melhores que as do rotativo. Muitos contratos já deixam isso automático. O do Nubank diz que, se você não escolher o número de parcelas, o saldo é parcelado no número de vezes definido pelo banco.
Pagar menos que o mínimo, ou não pagar nada, já é atraso. Aí entram, além dos juros, multa de até 2% (o teto do Código de Defesa do Consumidor) e juros de mora, que no contrato do Nubank são de 1% ao mês. O cartão pode ser bloqueado e o seu CPF pode ir para os cadastros de inadimplentes.
A conta de quem paga o mínimo
Vamos a um exemplo com as taxas médias de julho de 2026. A fatura é de R$ 2.000, você paga R$ 300 (digamos que esse seja o mínimo do seu banco) e R$ 1.700 vão para o rotativo.
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Saldo que foi para o rotativo | R$ 1.700 |
| Juros de um mês de rotativo, a cerca de 15% | R$ 255 |
| Saldo devido na fatura seguinte, fora as compras novas | R$ 1.955 |
| Parcelamento em 12 vezes, a cerca de 9,3% ao mês | 12 parcelas de R$ 277 |
| Total pago pelos R$ 1.700 originais | R$ 3.319 |
A conta não inclui o IOF, que também incide sobre rotativo e parcelamento. Mesmo sem ele, você paga quase o dobro do que devia.
Pra comparar: os mesmos R$ 1.955 num empréstimo pessoal pela taxa média de julho (cerca de 6,4% ao mês) dariam 12 parcelas de uns R$ 239. No consignado, que custava em média cerca de 2,1% ao mês, seriam uns R$ 186. Médias escondem diferenças enormes entre bancos, então refaça a conta com a taxa que aparece na sua fatura e no app.
O teto de juros que vale desde 2024
Desde 3 de janeiro de 2024, existe um limite. A Lei 14.690, de 2023, e a Resolução 5.112 do Conselho Monetário Nacional determinam que o total de juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não pode passar do valor original da dívida. Uma dívida de R$ 1.700 pode chegar, no máximo, a R$ 3.400.
Entram nesse teto os juros, a multa e os juros de mora por atraso e qualquer tarifa ligada à operação. Quando o rotativo vira parcelamento, a conta continua valendo a partir do valor que entrou no rotativo, contando desde o primeiro dia. Trocar de modalidade não zera o limite.
Repare que, no exemplo acima, os juros somaram R$ 1.619, encostando no teto de R$ 1.700. O limite impede o pior, mas não transforma o rotativo em crédito barato.
A regra ainda garante duas coisas que pouca gente usa. Primeiro, transparência: a fatura e os demonstrativos precisam mostrar o valor original da dívida e quanto já foi cobrado de juros e encargos, e o documento descritivo do crédito informa também quanto ainda pode ser cobrado. Segundo, renegociação a qualquer momento, com o mesmo teto valendo e descontando o que você já pagou de juros e encargos.
Compras parceladas sem juros na loja ficam fora dessa conta. O limite vale para o financiamento da fatura, ou seja, rotativo e parcelamento.
Parcelar a fatura: quando ajuda e quando atrapalha
O parcelamento da fatura tem juro menor que o rotativo (189,28% ao ano contra 436,15% na média de julho), prazo definido e parcela fixa. Se você não consegue quitar em poucos dias, ele é menos ruim que deixar o saldo rodando.
Cuidado com a bola de neve. A parcela entra na fatura seguinte junto com as compras novas, a fatura cresce, você paga o mínimo de novo e abre um segundo parcelamento em cima do primeiro. A regra proíbe jogar valor já parcelado de volta no rotativo, mas não impede que cada fatura nova gere um parcelamento novo.
Tem ainda um efeito colateral. O banco precisa considerar o valor financiado na análise de risco, inclusive na hora de definir o seu limite, e pode reduzir o limite sem o aviso prévio de 30 dias quando o seu perfil de risco piora. Quem conta com o limite como colchão pode ficar sem ele justo no pior mês.
Se for parcelar, dê a maior entrada que conseguir, escolha o menor número de parcelas que caiba no orçamento e pare de usar o cartão até terminar. E guarde esta: o Código de Defesa do Consumidor garante a quitação antecipada com redução proporcional dos juros. Entrou um dinheiro extra, antecipe.
Como sair se você já está nessa
Comece pelo mapa. O Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR), do Registrato do Banco Central, mostra de graça todas as suas dívidas com bancos e financeiras, com saldo devedor e situação, em dia ou em atraso. Dá pra emitir pelo Meu BC, com conta gov.br nível prata ou ouro e verificação em duas etapas ativada. Com a lista na mão, siga esta ordem:
- Pare de usar o cartão endividado. Tire ele dos apps de compra e da carteira digital do celular. Sem isso, nenhum plano fecha.
- Troque dívida cara por dívida mais barata. Em julho, o empréstimo pessoal custava em média 110,95% ao ano, e o consignado, 28,43%. Pegar um crédito mais barato pra quitar a fatura só funciona se o passo 1 estiver valendo.
- Peça a portabilidade. Desde 1º de julho de 2024, dá para levar o saldo devedor do cartão, inclusive a parte já parcelada, para outra instituição, que quita a dívida no banco original. O banco antigo pode fazer uma contraproposta pra te segurar, o que também joga a seu favor.
- Renegocie com o teto na mão. Você pode pedir renegociação a qualquer momento, e os juros e encargos dela também não podem passar do valor original da dívida.
- Se a dívida é antiga, acompanhe o Desenrola 3.0. A Medida Provisória 1.393, de 25 de setembro de 2026, que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso, prevê leilões em que a União compra carteiras de dívidas com valor original de até R$ 10 mil e atraso de mais de 720 e menos de 1.645 dias (algo entre dois e quatro anos e meio), repassando ao devedor um desconto mínimo de 90%. Pelo cronograma divulgado pelo governo, os descontos começam em fevereiro de 2027.
Sair do rotativo tem menos a ver com achar a taxa perfeita e mais com interromper o ciclo. A fatura que você não consegue pagar hoje precisa ser a última que chega nesse estado.
Se a fatura deste mês veio maior do que cabe no salário, decida antes do vencimento: quite com um crédito mais barato ou parcele com entrada e guarde o cartão. Deixar para o mês que vem é exatamente o que o rotativo espera de você.
